quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Meu salto alto


Era uma adulta como qualquer outra, ou talvez não.
Talvez ela ainda fosse aquela menininha esperando no portão de ferro da escola o carro preto de películas escuras.
Talvez ela só desejasse ser uma criancinha que é super protegida pelos seus pais.
Talvez ela estivesse com medo de amadurecer.
Talvez ela quisesse de verdade colocar seu salto alto, mas estivesse com medo de cair e de deixar sua bolsa cair e esparramar seu celular, pó de arroz, seus brincos e seus papeis importantes.
Talvez ela estivesse com medo de encarar a vida de frete e bater com a face.
Talvez ela só desejasse ser amada, ou talvez não.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

No sepultamento !


Onde está na hora que ela mais precisa?
Quem é quando ela tem curiosidade?
O que te fascina quando mais é fascinado?
É difícil ter certeza da certeza de uma duvida
Só me ame, me ame, me ame.
Diga a ela que vá embora, que agora sou tua. Ela me perfurou o motor que me faz viver...
Me mate e festejeis em meu sepultamento, dance sobre a caixa que reveste meu corpo frio e sombrio, se não tive gozo em vida que tenha na ultima e única festa que não ficarei abalada, já que, perfurado o motor ficou...
E então me ama como não me amou em vida

"Eu sei, mas não devia "

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


-Marina Colasanti-

Setembro de 1844


Era uma manhã chuvosa, mas o sol raiava como nunca, pareceu que iria ficar daquele jeito o resto do dia. Todos estavam lá a homenageando pela ultima vez.
Minhas recordações sobre a tal não são poucas, lembro-me como se fosse hoje do dia que brigamos pela ultima vez...
*Ela estava no seu quarto quando avancei porta adentro, lá, estava apunhalada uma traição imperdoável. Ela me jogava a traição como um objeto qualquer, pronunciava-me coisas imperdoáveis, coisas que jamais poderia concordar, foi então que ela me forçou a contar a historia da “anti-traida”. Em fúria a tal ficou que me deixou de olhos arregalados e abismados com o que acabara de invocar meus tímpanos. Naquela hora pensei o que poderia fazer o que poderia falar, mas a melhor resposta foi o silencio, a verdade não havia sido escondida, então só havia que esperar a calma proclamar sua ternura. Depois disso não me lembro ao certo o que ocorreu só sei que agora ela não estaria em meu meio, não sei se isso me faria bem, eu gostava das vezes que ela e eu conversávamos sobre amores, amores que ela não aceitava para mim.
Mas só tenho a dizer que foi bom enquanto durou e eu não espero ir atrás dela apara que possamos colocar em pratos limpos nossas desavenças. Não sinto remorsos nesse aspecto. *

- Senhorita Kate? Deseja falar alguma coisa para sua amiga? Já estão querendo sepulta-lá ...
- Minhas desculpas! Fiquei presa com minhas lembranças que não vi o tempo correr. Só quero dizer: Que Deus cuide muito bem dela!
- Amém !